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Informações Técnicas

Solo Tocantinense

O Estado do Tocantins possui cerca de 90 % do seu território dominado pelos Cerrados. Nesse bioma, predominam solos com baixa fertilidade e acidez elevada com presença de elementos, como o alumínio (Al), em forma tóxica pra o crescimento de raízes. A acidez está presente, também, nas camadas do subsolo que, aliada aos baixos teores de cálcio (Ca), limitam o crescimento das raízes em profundidade, diminuindo a absorção de água e nutrientes e aumentando os riscos dos veranicos para os sistemas de produção agrícola.

As principais classes de solos da região são de solos Concrecionários (23 %), Latossolos (22 %) e Neossolos Quartzarênicos (19 %). Como uma das características dessas classes, pode-se citar a predominância de texturas média e arenosa, o que determina uma baixa retenção de água, favorecida também pelo baixo teor de matéria orgânica dos solos. Dessa forma, as práticas da gessagem, calagem e adubação são fundamentais para permitir sistemas agropecuários mais produtivos e sustentáveis no Estado.

A calagem em níveis adequados fornece Ca e magnésio (Mg) às plantas, aumenta o pH do solo, diminui os níveis tóxicos das formas de Al e aumenta a disponibilidade de fósforo (P). Em solos com concentração muito baixa de Al e baixa concentração de Ca, o suprimento desse nutriente é o principal fator responsável pelo crescimento do sistema radicular. Com esses benefícios ter-se-á, em última análise, o aumento de produtividade das culturas.

Uma boa recomendação de corretivos e fertilizantes se inicia com uma boa amostragem de solo, que implica em dividir a área em talhões homogêneos de acordo com o relevo, textura do solo, histórico de uso, etc. Deve-se coletar cerca de 20 pontos (amostras simples) na profundidade recomendada para se formar uma amostra composta. Para culturas anuais a profundidade mais utilizada é de 0-20 cm e, adicionalmente de 20-40 e 40-60 cm, para culturas perenes. As amostras simples devem ser homogeneizadas em lona plástica ou balde, retirando-se cerca de 200 a 300 g de solo, acondicionando em saco plástico devidamente identificado (nome do produtor, da fazenda, profundidade amostrada, cultura de interesse, etc.) para envio ao laboratório de análise de solo.

As doses recomendadas de calcário são calculadas com base na demanda de Ca e Mg pela planta, na tolerância de cada espécie ao Al e no teor de argila do solo. Os métodos de cálculo mais utilizados são o da neutralização do Al e elevação dos teores de Ca e Mg no solo e o da saturação por bases. Como culturas mais exigentes em Ca e Mg podem ser citadas o café, cana, melancia, melão, mamão e menos exigentes a mandioca, pastagens e eucalipto. A calagem em doses abaixo das recomendáveis não permite alcançar os objetivos propostos da técnica e, em doses acima, pode promover alcalinização do solo, com diminuição da disponibilidade de micronutrientes.

O valor de 2,0 cmolc dm-3 de Ca + Mg disponíveis no solo atende à demanda de grande parte das culturas, com Al reduzido a zero. A saturação por bases de 50 % satisfaz a maioria das culturas de sequeiro cultivadas no Cerrado. Em sistemas irrigados, recomenda-se aplicar calcário para elevar a saturação por bases a 60 % e em pastagens estabelecidas com espécies tolerantes à acidez recomenda-se saturação por bases de 30 %.
A prática da gessagem melhora o perfil de solo, favorecendo o crescimento radicular em profundidade. Com isso, tem-se ocupação de maior volume de solo e maior absorção de água e, conseqüentemente, maior resistência a veranicos, comuns na região de cerrado. Entretanto, se mal manejada, essa técnica pode causar perda de bases trocáveis por lixiviação ao longo do perfil de solo, favorecida pela granulometria mais grosseira do solo. Resultados de pesquisa com algodão em solos de textura arenosa e média no cerrado do oeste baiano mostram perdas de até 80 kg ha-1 de K2O para cada tonelada de gesso aplicada. O gesso funciona, também, como importante fonte do nutriente enxofre, essencial para a nutrição das culturas, que mostram resposta à aplicação de até 30 kg ha-1.

A necessidade da aplicação de gesso é definida pela análise de solo na camada subsuperficial (20-40, 40-60 cm) quando se tem, nessas camadas, saturação por alumínio maior que 20 % e ou o teor de Ca menor que 0,5 cmolc dm-3. Além disso, é preciso considerar a textura do solo, devendo ser aplicadas doses menores desse insumo em solos mais arenosos.

Em relação à adubação, pelas características do Tocantins, com solos de texturas mais arenosas, deve-se pensar em adubação do sistema e não apenas da cultura de interesse, pois a formação de palhada para cobertura do solo, com adubação realizada na cultura antecessora, e a construção de perfil de solo, tendo-se camada de solo com fertilidade corrigida em maior profundidade, são fundamentais para o sucesso do cultivo, além de outros fatores. Sistemas de manejo conservacionistas, como o plantio direto, devem ser incentivados.

Além da análise de solo, é recomendada a diagnose foliar (análise das folhas) para melhor identificação das deficiências dos nutrientes e melhor manejo da adubação. Existem tabelas de interpretação da análise foliar, bem como tabelas para recomendação de adubação a partir da interpretação da disponibilidade no solo.

Entretanto, com o objetivo de propor uma nova abordagem para as recomendações de adubação para as culturas agrícolas, em substituição à abordagem tradicional, de utilização de tabelas que relacionam a classificação de resultados de análises de solo com doses de nutrientes a aplicar, propõem-se um sistema de cálculos que estima a demanda da cultura por nutrientes, baseando-se na produtividade almejada e no conteúdo de nutrientes nos diferentes componentes da planta, além de se estimar o suprimento de nutrientes pelo solo. As doses de nutrientes a aplicar como fertilizantes correspondem à diferença entre a demanda e o suprimento, além de considerar outras fontes de nutrientes, como restos da cultura anterior e adubos orgânicos. Dessa forma, é possível estimar o balanço de massa dos nutrientes no sistema agrícola e monitorar a sustentabilidade da exploração em termos de manutenção da fertilidade do solo em longo prazo. Esse sistema é idealizado com características que favorecem o desenvolvimento de um aplicativo de computador para utilização pelos profissionais da área é suficientemente flexível para permitir seu constante aprimoramento e adaptável a qualquer tipo de cultura e regiões agrícolas. Desta forma, o sistema deve ser testado pelo uso, verificando-se a sua validade como ferramenta de modelagem para que o profissional possa aplicar e monitorar os resultados de suas recomendações em médio e longo prazo.

Essa nova abordagem permite, além dos avanços nos estudos de fertilidade do solo e nutrição de plantas, a identificação de lacunas no conhecimento, possibilitando o direcionamento de futuras pesquisas para que se busquem sistemas produtivos mais eficientes do ponto de vista econômico e ambiental.

Manoel Ricardo A. Filho
Pesquisador - EMBRAPA/CPAC

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